segunda-feira, 6 de abril de 2026

As 9 lições de Trump de 40 anos atrás que ele ignorou na guerra no Irã

 

Trump não segue ensinamentos do seu próprio livro de 1987

Trump não segue ensinamentos do seu próprio livro de 1987

Divulgação


"Sempre entro numa negociação prevendo o pior. Se você se planeja para o pior - se consegue viver com o pior - o melhor sempre dá conta de si."

A frase é uma das recomendações feitas por Donald Trump em seu famoso livro The Art of the Deal (A Arte da Negociação, em português), uma mistura de autobiografia e dicas de gestão lançada em 1987 e que vendeu mais de um milhão de cópias.

E é também uma das nove lições que, quase 40 anos depois de escritas, ele próprio parece ter se esquecido ao se lançar em uma guerra com o Irã que já ultrapassa um mês em duração e provocou uma série de consequências indesejáveis para os EUA - e o mundo.

A evidência coletada até agora sugere que Trump estava longe de estar preparado para o pior cenário ao lançar sua Operação Fúria Épica contra os persas, em 28 de fevereiro.

"Eles (o Irã) não deveriam ter investido contra todos esses outros países no Oriente Médio. Ninguém esperava isso. Ficamos chocados", disse um surpreso Trump, em meados de março, citando os ataques iranianos no Catar, na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrein e no Kuwait.

Os atos da República Islâmica eram, porém, considerados uma resposta óbvia por quem entende da região e dos atores envolvidos. O Irã tem consistentemente entrado em conflitos diretos e indiretos - por meio de proxies - com seus vizinhos ao longo das últimas décadas. Atacado militarmente, era segredo de polichinelo que reagiria assim.

 

"A chave do sucesso é localização, localização, localização", dizia Trump, em 1987. Algo que ele parece ter ignorado 40 anos mais tarde, ao supor que repetiria no instável Oriente Médio uma vitória militar rápida e sem baixas como fez, dois meses antes, na ação na Venezuela.

Mas não era óbvio para os auxiliares de Trump. Uma reportagem da revista Time publicada há alguns dias mostrou que o Secretário de Defesa - ou como ele prefere, de Guerra - de Trump, Pete Hegseth, também desconsiderou a chance de um conflito regional nos planos que vendeu ao líder da Casa Branca. A chefe de gabinete de Trump, Susie Wiles, surge agora, segundo a reportagem, como alguém que tem tentado fazer o Pentágono e o Departamento de Estado informarem Trump sem eufemismos sobre o estado de coisas no Irã.

"A experiência me ensinou algumas coisas. A primeira é seguir seu instinto, não importa o quanto algo pareça promissor no papel. A segunda é que você geralmente vai se sair bem caso se limite àquilo que conhece. E a terceira é que, às vezes, seus melhores investimentos são aqueles que você não faz", dizia Donald Trump, no livro feito em coautoria com Tony Schwartz.

Naquele momento, ele se jactava de ter se retirado, de última hora, de um negócio que um amigo empresário promovia envolvendo petróleo, e que exigiria investimentos seus de US$ 50 milhões. Quase 40 anos depois, ele não conseguiu usar este mesmo manual contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que o assediava por uma guerra contra o Irã desde seu primeiro mandato (2017-2021).

E a falta de cálculos e de previsibilidade sobre, por exemplo, o fechamento do Estreito de Hormuz pelos iranianos mostram que foi sobretudo o instinto - e não o assessoramento ou o conhecimento - que impediram Trump de se lançar à empreitada militar antes.

 

Com Forças Armadas significativamente mais frágeis que as de Israel e as dos EUA, o Irã conseguiu impor um custo enorme aos dois países e ao mundo ao impedir a passagem de navios petroleiros pelo canal marítimo entre seu território e o de Omã, por onde passavam 20% do petróleo mundial antes do conflito eclodir.

Como resultado, o preço do barril de petróleo explodiu. O galão da gasolina nas bombas dos postos nos EUA ultrapassaram os US$ 4. Foi exatamente a inflação de combustíveis e alimentos que custou aos democratas a derrota eleitoral diante de Trump em 2024. "No fim, o dinheiro sempre fala", relembraria o Trump de 1987 ao Trump de 2026.

A resposta do presidente dos EUA diante dos potenciais custos domésticos da guerra - inflação, queda de popularidade e potencial derrota nas eleições de meio de mandato em novembro - foi agir com explícita irritação e quase desespero. Ele tentou forçar os aliados da Otan a mandarem seus navios para reabrir, militarmente, o Estreito de Hormuz. Recebeu uma negativa. E aí passou a dizer que negociava um acordo com os iranianos para controlar a passagem "junto com o aiatolá". Os iranianos não só negaram, como publicaram em suas redes sociais um meme de um controle de videogame desligado sob operação do republicano.

"A pior coisa que você pode fazer numa negociação é parecer desesperado para fechá-la. Isso faz o cara farejar sangue e aí você está morto", escreveu o Trump de 1987, em uma descrição que caberia quase à perfeição sobre os erros que ele próprio cometeria quase 40 anos depois.

Envolvidos em uma batalha existencial, os iranianos usam o tempo a seu favor. Já Trump tem dado prazos desencontrados para o fim do conflito. Primeiro, dias. Depois 4 a 5 semanas, já estouradas. Agora, mais 3 semanas - e prometendo bombardear instalações elétricas dos iranianos se eles não chegarem a um acordo.

 

"A melhor coisa que você pode fazer é negociar de uma posição de vantagem. (...) Vantagem é ter algo que o outro quer. Ou melhor ainda, precisa. Ou, melhor de tudo, simplesmente não pode viver sem." O nome da vantagem numa guerra assimétrica como esta não é Tomahawk, é Hormuz.

Se o front não o favorece, Trump tenta recorrer a um recurso que já dominava em 1987 e do qual não se esqueceu. "A última chave do meu jeito de me promover é a bravata. Eu brinco com a fantasia das pessoas. Nem sempre as pessoas pensam grande, mas podem ser muito instigadas por quem faz isso. Por isso, um pouco de hipérbole nunca faz mal. As pessoas querem acreditar que uma coisa é a maior, a melhor e a mais espetacular", escreveu Trump em seu "A Arte da Negociação".

Esta é uma premissa que ele vem seguindo à risca. Em seu último pronunciamento à nação, na última quarta-feira, o presidente chegou a dizer inclusive que tinha realizado "mudança de regime" no Irã. Embora tenha eliminado dezenas de lideranças, inclusive o líder supremo aiatolá Ali Khamenei, os EUA e Israel não conseguiram retirar do poder a República Islâmica, que comanda o país há 47 anos.

No mesmo discurso, Trump prometeu retornar o Irã à "Idade da Pedra"e disse que aniquilou as defesas marítimas e aéreas do país. Segundo Hegseth, os iranianos estariam tão desprovidos de condições de defesa antiaérea que os norte-americanos estariam sobrevoando o território com pesadas aeronaves B-52, alvos fáceis de abater. "A questão é que você não pode ser ganancioso demais", dizia o Trump de 1987, quase como um mau agouro para o atual presidente.

Menos de 48 horas após o discurso à nação de Trump, forças iranianas conseguiram abater um caça F-15E (bem mais potente e veloz que um B-52) dos EUA. Até o fechamento deste texto, um dos pilotos do jato militar abatido havia sido resgatado em uma operação militar de salvamento dos EUA. O outro seguia desaparecido.

O episódio deu a Mohammad Ghalibaf, presidente do Parlamento do Irã, responsável pela supervisão da guerra e supostamente interlocutor na negociação por um acordo, a chance de tripudiar de Trump e dos EUA na rede social X. "Esta brilhante guerra 'sem estratégia' que eles iniciaram foi agora rebaixada de 'mudança de regime' para 'Ei! Alguém consegue encontrar nossos pilotos? Por favor?' Uau. Que progresso incrível. Gênios absolutos", escreveu Ghalibaf.

Se folheasse o próprio livro publicado em 1987, Trump veria ali: "Você não consegue enganar as pessoas, pelo menos não por muito tempo". Há quatro décadas, Trump já reconhecia que a bravata tem limite. A ver quando ele deve se lembrar do que ele mesmo citou como a lição da pessoa mais influente e importante da sua vida, o pai, Fred Trump"Entre, faça, faça direito e saia".


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