quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Menos diplomacia, mais força: o mundo entra na era do confronto

 

Boné com escritos "Make America Go Away" e a bandeira da Groenlândia na lateral

Boné com escritos "Make America Go Away" e a bandeira da Groenlândia na lateral

Reprodução/Aannguaq Reimer-Johansen/Facebook


Irineu Machado, do UOL

A escalada militar liderada por Donald Trump marca uma mudança clara na ordem internacional: menos diplomacia, mais coerção. Da Venezuela à Otan, os efeitos dessa estratégia já pressionam mercados, alianças e decisões políticas — inclusive no Brasil.

O tabuleiro da geopolítica deixou de operar como um jogo de cálculo estratégico e passou a funcionar na lógica do confronto direto. Sob Donald Trump, o que antes soava como excentricidade — como a ideia de comprar a Groenlândia — ganhou forma de doutrina, com a anexação e a ocupação militar sendo tratadas como instrumentos legítimos de "segurança nacional" contra Rússia e China. O ataque dos EUA à Venezuela para tirar Nicolás Maduro do poder não é episódio isolado, mas sinal de uma ruptura mais ampla: alianças tradicionais dão lugar a um sistema de subordinação, em que a soberania dos parceiros é contingente e reversível.

Apesar do impacto internacional e do desconforto crescente na Otan, Leonardo Sakamoto pondera que a influência desse cenário nas eleições brasileiras de 2026 costuma ser superestimada. Fora das bolhas políticas, o voto tende a ser decidido menos por embates ideológicos globais e mais pela experiência cotidiana. No corredor do supermercado, a queda acumulada de 25% no preço do arroz e de 33% no feijão em 2025 pesa mais do que qualquer discurso sobre Venezuela, Trump ou Maduro. É ali que o eleitor médio faz suas contas — e sua escolha.

 

A crise venezuelana, porém, tem efeitos diretos sobre a economia brasileira. Julio Wiziack mostra que representantes de acionistas minoritários da Petrobras pressionam por uma revisão do plano de investimentos da estatal, vendo na reconstrução do setor petrolífero da Venezuela uma oportunidade de entrada barata. A aposta envolve um possível sistema de "vouchers" defendido por Trump para empresas que invistam no país, com o objetivo de ampliar a oferta global de petróleo, conter a inflação e reduzir a presença chinesa na região. Nesse cenário, projetos caros e tecnicamente complexos — como a exploração da Foz do Amazonas — passam a ser questionados, especialmente diante da alta no custo de sondas e equipamentos.

O entusiasmo do mercado, no entanto, esbarra em limitações estruturais. No programa Mercado Aberto, o professor Edmar de Almeida lembra que o petróleo venezuelano é ultraviscoso, exige diluição cara e só se torna economicamente viável com o barril acima de US$ 80. Soma-se a isso um processo de 15 anos de degradação do setor: refinarias paradas, poços abandonados e infraestrutura que precisaria ser praticamente reconstruída. O potencial existe, mas o ponto de partida é muito mais baixo do que sugerem os discursos otimistas.

 

No campo da ciência, o Brasil enfrenta um desequilíbrio histórico. Carlos Nobre e Tiago Mota e Silva expõem que apenas 4% do investimento nacional em ciência chegam à região Norte. O resultado é uma dependência estrutural de recursos e agendas externas, que fragmenta a pesquisa e enfraquece soluções locais. Os autores defendem um modelo baseado em protagonismo regional, integrando saberes indígenas e ribeirinhos à produção acadêmica, para que a Amazônia deixe de ser apenas objeto de estudo e passe a definir suas próprias respostas.

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