Fui pega de surpresa quando o ex-conselheiro de Trump, Steve Bannon, me disse, na última terça-feira (15), que não estava acompanhando ao vivo a sessão do STF que podia resultar em uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, por suas supostas relações com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro. Ideólogo do movimento Make America Great Again (MAGA), Bannon não esconde o interesse que tem no Brasil, ainda mais às vésperas da eleição que pode levar de volta ao Palácio do Planalto a família Bolsonaro, com quem ele tem ligações políticas e pessoais. Em Washington, Bannon foi também um dos patrocinadores do pleito dos bolsonaristas pela sanção Magnitsky sobre Moraes. Quando a medida foi anunciada pelo Tesouro dos EUA, no ano passado, Bannon celebrou me dizendo que aquele era "o martelo que caiu sobre a cabeça de Lúcifer". Por isso tudo, eu supunha que ele seria mais um dos trumpistas ligados na transmissão da TV Justiça em Washington (havia ao menos meia dúzia deles dentro e fora do governo Trump). Mas o que veio na sequência foi ainda mais surpreendente: "não pude acompanhar, tive que fazer um discurso junto com Bernie Sanders". Sim, Bannon estava em um evento em parceria com o senador socialista de Vermont, ex-pré-candidato presidencial pelo partido Democrata, justamente contra Trump.
A improvável aliança tem um alvo bem claro: a falta de regulação aos avanços da inteligência artificial. Ambos dividiram o púlpito do evento "Pro Human Assembly", na capital americana, e se sucederam em clamar por restrições claras ao desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial antes que elas escapem ao controle humano. "Quando se está correndo em direção ao precipício, você pisa no freio", disse Sanders. "Este é um momento decisivo na história. Temos de nos erguer acima de diferenças partidárias", afirmou Bannon. "Quando o futuro da humanidade é o que está em jogo, é preciso regras de segurança internacionais, não padrões de auto regulação da indústria", seguiu Sanders. "O que as empresas de tecnologia estão fazendo agora é criar um cartel de oligarcas e transferir a responsabilidade para o povo americano", concordou Bannon. Sanders chegou a propor projetos de lei no Congresso dos EUA para criar obstáculos aos avanços tecnológicos, mas Bannon conclamou líderes dos executivos das grandes potências a tomarem ações mais ágeis, via ordens presidenciais, para reduzir os riscos. O debate se tornou central na agenda internacional desde que o pesquisador de inteligência artificial Jacob Coxon se demitiu da Anthropic, após ter deixado um posto na OpenAI, e veio a público dizer que "nenhuma das empresas está agindo de forma responsável". "Elas estão correndo diretamente em direção a uma superinteligência capaz de se aprimorar sozinha e estão apostando com nossas vidas", denunciou Coxon. Em vez de desacreditar as palavras do funcionário demissionário, os diretores da Anthropic vieram a público chancelar o diagnóstico dele. "Nós realmente acreditamos que a IA pode matar seres humanos" escreveu, no X, Evan Hubinger, diretor de segurança da empresa, que calculou em "mais de 10%" o risco de a tecnologia provocar a extinção humana na próxima década. Prestes a conduzir a abertura de capital da Anthropic em bolsa de valores, o CEO Dario Amodei propôs, no sábado passado, que as empresas de inteligência artificial concordem em desacelerar seus modelos coordenadamente. Amodei foi prontamente apoiado por Sam Altman, da Open AI, e Elon Musk, o trilionário dono do X e da Space X - outro alinhamento incomum. A movimentação gerou temor nos investidores e quedas na bolsa. E provocou mais uma rara concordância, mas no sentido oposto. Os governos dos EUA e da China disseram publicamente que não pretendem coibir o desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial. Trump chamou o risco apontado pelos especialistas de uma "farsa" e disse que uma desaceleração poderia retirar dos EUA a dianteira que o republicano vê seu país ter no assunto. Já o governo de Xi Jinping acusou os tecnocratas americanos de recorrer a práticas de competição da Guerra Fria. "O alarmismo, o confronto e a competição maliciosa apenas prejudicarão o processo de governança global da IA e não servirão aos interesses de ninguém", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun. Xi Jinping e Trump se encontrarão pessoalmente na semana que vem, quando o líder chinês virá a Washington para uma visita. As regulações da inteligência artificial deverão ser um dos temas das conversas entre os líderes, que parecem raramente dispostos a concordar em ignorar o levante de cada vez mais altas - e mais divergentes - vozes da sociedade. No Brasil, porém, o debate ainda mal começou. A campanha eleitoral poderia ser um momento propício para a conversa sobre como o país pretende se colocar, mas a agenda doméstica parece capturada demais pela crise do STF, na qual Bannon não conseguiu sequer prestar atenção. |