Semana passada, o jornal The New York Times dispensou um freelancer renomado, o que gerou discussões em mais um capítulo da série
"O uso da IA no jornalismo".
Foi um leitor quem notou: ao fazer a resenha de um livro, o jornalista e autor Alex Preston havia usado a ajuda de uma inteligência artificial. Isso ficou claro porque a tecnologia copiou e adaptou (sem grandes alterações, veja) trechos de uma outra crítica ao mesmo livro, publicada meses antes, no inglês The Guardian.
Um mês antes, aqui no Brasil, um leitor também avisou: a empresária Natália Beauty, dona de um império da beleza e colunista da Folha de S.Paulo, estava usando IA para escrever os textos dela no jornal.
O NYT, que proíbe o uso de IA para produção de textos, se pronunciou: "Tanto para jornalistas da casa quanto para colaboradores freelancers, a dependência de IA e a inclusão de conteúdo não atribuído a outro autor constituem uma violação grave da integridade e dos princípios fundamentais do jornalismo do Times." Preston se desculpou publicamente. Disse que estava "profundamente envergonhado" e que havia cometido um "erro sério".
Já Natália rebateu o comentário na coluna seguinte, cujo título era "Meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento, não"; e também na outra, "Primeiro o Beauty, agora a IA: qual será o próximo argumento para tentarem descredibilizar uma mulher improvável?". Ela segue entre os colunistas da "Folha", cuja Ombudsman disse que "é entusiasta do uso da inteligência artificial para melhorar a qualidade do serviço que presta ao leitor (...) e acredita que, em um futuro não distante, a polêmica que essa tecnologia ainda provoca será vista como estéril, pura perda de tempo e energia".
Lá fora, na The Associated Press, o uso do IA gerou pequeno conflito interno: líderes em IA sugeriram que resistir à inteligência artificial é "inútil". Num comunicado oficial, entretanto, a AP discorda dos colaboradores: "Essa discussão interna (...) não reflete a posição geral da AP sobre o uso de IA. Temos sido líderes no setor na definição de padrões para o uso de IA que protegem o papel essencial dos jornalistas, ao mesmo tempo em que permitem o uso da tecnologia para tarefas como tradução, resumos, transcrições e classificação de conteúdo".
Minha opinião? Concordo com todas as partes. Lutar contra o uso de ferramentas já tão bem distribuídas e que, assim como para tantas outras áreas, pode ser grande aliada do jornalismo, é enxugar gelo. Mas precisamos, com urgência, entender quais são as regras e os limites deste novo jogo. Isso é o que não está claro. A primeira delas, básica, é avisar ao leitor toda vez que uma IA participa da produção de um texto.
Há, entretanto, uma diferença clara entre os dois casos. Preston é jornalista e autor, vive de escolher as palavras certas. E havia sido chamado para publicar uma opinião. Natália, não. É uma empresária e empreendedora. Tem conhecimento de uma área específica e escreve sobre ela. As palavras certas para isso? Uma ghost writer, como se diz em inglês, ou uma jornalista-assistente poderiam ajudá-la sem problema. Por que a IA não?.
Por fim, um ponto me surpreende muito nos dois casos citados acima: o uso de IA pelos autores foi "descoberto" por leitores. Não deveria ser responsabilidade dos veículos - que checam ortografia, fontes e dados com maestria e profissionalismo únicos - checar também o uso de IA em suas publicações? Aliás, já não deveriam ter desenvolvido suas próprias IAs, com suas próprias regras e funcionalidades?










