segunda-feira, 9 de março de 2026

Fumaça em Teerã, drones no Golfo: a guerra atinge a economia mundial

 

Imagem reproduzida de vídeo publicado em redes sociais mostra incêndio em um terminal de armazenamento de petróleo em Teerã

Imagem reproduzida de vídeo publicado em redes sociais mostra incêndio em um terminal de armazenamento de petróleo em Teerã

Redes sociais/AFP


Irineu Machado, do UOL

O barril de petróleo ultrapassou os US$ 100 e a capital iraniana ficou coberta por uma nuvem tóxica que transformou o dia em noite. Nove dias após o início da ofensiva liderada por Estados Unidos e Israel, o conflito abandonou a cirurgia precisa dos ataques de eliminação seletiva de lideranças e entrou em uma fase de atrito estrutural. A guerra agora mira o que sustenta a vida civil e a economia global: energia, água e rotas comerciais.

O tabuleiro militar

Ataques em Teerã: Pela primeira vez nesta guerra, caças israelenses e americanos bombardearam infraestrutura energética iraniana, atingindo refinarias e depósitos de combustível em Teerã e Karaj. Autoridades recomendaram que a população evite sair de casa diante do risco de chuva ácida.

A crise da água no Golfo: Um drone iraniano danificou uma usina de dessalinização no Bahrein. No dia anterior, o Irã havia acusado os EUA de bombardearem uma instalação semelhante na ilha iraniana de Qeshm, abrindo uma nova frente no conflito.

Vítimas: O Pentágono confirmou a morte de seu sétimo militar, um soldado do Exército que havia sido gravemente ferido no dia 1º de março, quando o Irã atacou uma base militar na Arábia Saudita que abrigava tropas americanas. O reino saudita também registrou suas primeiras vítimas civis: dois trabalhadores imigrantes. No Líbano, o número de mortos causados por forças israelenses se aproxima de 400.

 

Israel no Líbano: Forças israelenses realizaram um ataque inédito contra o Hotel Ramada, no centro de Beirute, matando cinco comandantes da Força Quds da Guarda Revolucionária Iraniana.

A disputa narrativa sobre a escola de Minab

Permanece uma controvérsia sobre o bombardeio a uma escola primária no sul do Irã que matou mais de 160 crianças no primeiro dia da guerra. Donald Trump afirmou que a tragédia foi causada por mísseis iranianos imprecisos. No entanto, investigações em vídeo e análises de armamentos conduzidas pela CNN e pelo The New York Times indicam que a munição utilizada foi um míssil Tomahawk americano, que atingiu a escola adjacente a uma base naval iraniana.

 

A sucessão e o "líder de fato"

A Assembleia dos Especialistas do Irã definiu que Mojtaba Khamenei, 56, sucederá seu pai, Ali Khamenei. A escolha quebra uma promessa central da Revolução Islâmica de 1979: a de extinguir a hereditariedade do poder. Íntimo da Guarda Revolucionária (IRGC), Mojtaba representa a ala mais dura do regime.

Enquanto ele consolida o poder formal, quem opera a máquina de guerra no dia a dia é Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, relata o Wall Street Journal. Larijani desautorizou publicamente o presidente Masoud Pezeshkian, que havia tentado pedir desculpas aos países árabes vizinhos pelos mísseis iranianos que caíram em seus territórios. A mensagem foi clara: qualquer nação que abrigue bases americanas será alvo, conforme reportagem do The Guardian.

Como Netanyahu convenceu Trump

A adesão total dos EUA à guerra de Israel contra o Irã foi, acima de tudo, uma vitória de persuasão de Benjamin Netanyahu. Segundo fontes do Wall Street Journal, o primeiro-ministro israelense ignorou a opinião pública americana e concentrou seus esforços em um único interlocutor: Donald Trump. Figuras centrais do governo, como o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio, pregaram cautela e resistiram à ideia de um conflito aberto, mas foram atropelados pela decisão presidencial.

Petróleo nas alturas e o "efeito pânico"

Os mercados financeiros globais acordaram apavorados. O barril de petróleo Brent saltou 17%, ultrapassando os US$ 108, com o temor de que o conflito paralise o Estreito de Ormuz. Analistas preveem que o barril possa alcançar US$ 120, o que ameaça desacelerar o crescimento global e reavivar a inflação. Nas bolsas, ações de software e semicondutores despencaram com a fuga de investidores para o dólar.

Impacto econômico: A guerra está punindo a Europa e a Ásia muito mais rápido do que os EUA, diz reportagem do Washington Post. O tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz caiu 90%. Com o espaço aéreo fechado em grande parte da região, o frete aéreo global perdeu um quinto de sua capacidade. Em resposta, os EUA aprovaram isenções para que a Índia compre petróleo russo, uma tentativa de conter a disparada dos preços.

Impacto humanitário: A destruição mútua de usinas de dessalinização cruza uma linha vermelha no Golfo Pérsico, uma das regiões mais áridas do mundo. Cidades inteiras, como Riad, dependem quase exclusivamente da dessalinização para sobreviver; a destruição dessas instalações forçaria evacuações em massa em menos de uma semana, cita reportagem do New York Times.

O perigo do urânio: Com a cadeia de comando iraniana fraturada e túneis militares expostos, EUA e Israel debatem o envio de forças especiais ao solo iraniano para confiscar quase meia tonelada de urânio enriquecido a 60% em Isfahan. Trump declarou que "tudo está na mesa".

Reações internacionais

EUA (Trump): Exigiu a "rendição incondicional" do Irã, ameaçou que o novo Líder Supremo "não durará muito" sem aval de Washington e minimizou a alta nos preços da gasolina nos EUA como um mero "pequeno contratempo".

EuropaEmmanuel Macron ligou para a liderança iraniana pedindo o fim dos ataques e anunciou uma visita ao Chipre — país europeu atingido por drones — para reforçar suas defesas. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificou a operação EUA-Israel como "imprudente e ilegal", recusando o uso de bases espanholas no esforço de guerra americano.

Liga Árabe: O secretário-geral classificou as ações de retaliação do Irã contra países vizinhos como uma "política irresponsável".

 

O movimento silencioso da China

Washington Post revelou que navios iranianos partiram de um porto chinês carregados com perclorato de sódio (precursor vital para combustível sólido de mísseis balísticos). É uma decisão diplomaticamente ousada de Pequim: permitir o reabastecimento militar de Teerã em plena guerra contra os EUA, arriscando suas relações comerciais com o restante do Golfo.

Retorno histórico ao Iraque: Vinte anos após a invasão, os EUA estão novamente realizando ataques aéreos pesados no país, destaca reportagem do Wall Street Journal — desta vez contra milícias xiitas, como a Kataib Hezbollah, que tentam apoiar o Irã atacando bases americanas.

O dilema curdo: Trump sugeriu apoiar grupos curdos no Irã para combater o regime. Analistas, porém, advertem que instigar o separatismo pode, paradoxalmente, salvar a teocracia — forçando a população iraniana, majoritariamente persa, a se unir em torno do governo para evitar a desintegração territorial do país. O Wall Street Journal publicou um editorial com o título "Os riscos de armar os curdos no Irã"

Perguntas, respostas e incertezas

 

O Irã vai parar de atacar os vizinhos árabes? Provavelmente não. Apesar da tentativa do presidente iraniano de pedir desculpas aos vizinhos árabes, a Guarda Revolucionária (IRGC) e lideranças militares foram a público alertar que atacarão qualquer nação que ceda espaço aéreo ou bases para os americanos. A ameaça é refletida nos números da guerra: segundo dados da própria IRGC, citados pelo The Guardian e pela CNN, cerca de 60% do poder de fogo iraniano até agora foi direcionado aos países do Golfo, e não a Israel.

Incerteza crítica: O mundo ainda não sabe quão resiliente é o arsenal de drones suicidas do Irã, nem se o país conseguirá bloquear permanentemente o Estreito de Ormuz por meio de intimidação.

O foco militar dos EUA e a "paz" de Pequim

A decisão da administração Trump de entrar em guerra direta contra o Irã, ao lado de Israel, está cobrando um preço elevado, diz reportagem do Wall Street Journal. As forças americanas disparam mísseis e interceptadores em ritmo alarmante, esvaziando estoques globais. O envio de sistemas Patriot e THAAD do Indo-Pacífico para o Oriente Médio acendeu um alerta vermelho no Pentágono: ao se concentrar em uma frente, os EUA ficam vulneráveis em seu maior desafio estratégico: a China.

Segundo a reportagem, enquanto Washington digere as consequências de ter "eliminado" figuras próximas a Pequim em dois meses — Nicolás Maduro e o aiatolá Ali Khamenei —, a China joga o jogo longo. O ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, aproveitou a turbulência para posicionar seu país como o "mais precioso recurso de estabilidade" global, exigindo um cessar-fogo e se preparando para uma tensa cúpula entre Xi Jinping e Trump.

 

Sangue e sobrevivência no Oriente Médio

Longe das mesas de negociação, a realidade é brutal. Em Gaza, a indústria pesqueira entrou em colapso total sob o bloqueio israelense; barcos destruídos agora servem de suporte para tendas de refugiados. "O que fazemos agora não é pescar de verdade. É arriscar a vida pela esperança de trazer um ou dois peixes para a sua tenda", desabafa o pescador Dawood Sehwail, 72 anos, em reportagem da Al Jazeera.

Na Cisjordânia, a violência bate recordes sob a sombra do conflito regional, publica o Guardian. Colonos israelenses, diz o jornal britânico, frequentemente vestindo uniformes militares e armados com fuzis M16, mataram três palestinos em Abu Falah em uma única noite, aprofundando o que a ONG B'Tselem chama de "limpeza étnica" sob o disfarce da guerra.

Um degelo forjado a ouro

 

Os EUA receberam um carregamento de US$ 100 milhões em ouro venezuelano — o primeiro sinal concreto de uma nova aliança comercial impulsionada pelas reformas de Delcy Rodríguez. As reservas do país, estimadas em US$ 500 bilhões, estão na mira das mineradoras americanas, abençoadas pelo Departamento do Tesouro.

 

Cacau apodrecendo e a corrida do ouro

Na África Ocidental, Gana e Costa do Marfim — responsáveis por 70% da oferta global de cacau — vivem uma tragédia econômica, aponta uma reportagem da agência AP. Após os preços baterem recordes no mercado internacional, a bolha estourou: de US$ 12 mil caiu para US$ 4 mil a tonelada. Com estoques apodrecendo em armazéns e pagamentos cortados, agricultores arrendam suas terras para mineradores ilegais de ouro e areia, destruindo a fertilidade do solo. "Se eu mantiver esta fazenda de cacau pelos próximos 10 anos, morrerei pobre", diz o agricultor Manu Yaw Fofie.

O fim de uma era "punk" na cerveja

No Reino Unido, uma lição amarga sobre crowdfunding retratada em reportagem do New York Times. A BrewDog, cervejaria escocesa antes avaliada em US$ 1 bilhão, foi vendida para a americana Tilray Brands por meros US$ 44 milhões. Os 220 mil pequenos investidores — apelidados de "equity punks" — que ajudaram a erguer o império acreditando em sua fachada antissistema não receberão um centavo da venda.

 

O que está acontecendo entre as gigantes de IA e o Pentágono?

O governo dos EUA quer a inteligência artificial no centro de suas operações de guerra, mas as empresas estão rachadas, conta o colunista do New York Times Ezra Klein. O secretário de Defesa Pete Hegseth ameaçou declarar a Anthropic (criadora do Claude) um "risco na cadeia de suprimentos", buscando essencialmente destruí-la comercialmente.

Por que essa retaliação agressiva?

A Anthropic recusou-se a permitir que o Claude fosse usado pelo exército americano para vigilância em massa ou armas autônomas letais. O governo Trump exige um padrão de "qualquer uso legal", o que eliminaria as salvaguardas éticas do sistema. Aliados de Trump, como Elon Musk, acusam a empresa de ser movida por uma ideologia "woke".

Como o mercado reagiu?

Com choque. O Pentágono abandonou a Anthropic e fechou negócio com a OpenAI, que aparentemente cedeu. Mas a decisão cobrou seu preço: Caitlin Kalinowski, líder de hardware da OpenAI, renunciou expressando profundo temor moral. Segundo ela, "vigilância de americanos sem supervisão judicial e autonomia letal sem autorização humana são limites que mereciam mais deliberação ".

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