segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tiros a 18 metros de Trump: a cronologia do ataque

 

Jornalistas agachados após tiros em jantar com Trump

Jornalistas agachados após tiros em jantar com Trump

Evan Vucci/Reuters


Irineu Machado, do UOL

A atmosfera no subsolo do Washington Hilton na noite de sábado misturava glamour e a expectativa pelo discurso de Trump. Conforme detalhado em relatos e vídeos de bastidores divulgados por veículos como The New York Times e The Washington Post e agências como Associated Press e Reuters, a elite da política e do jornalismo americano, vestida em smokings e vestidos de gala, saboreava uma entrada de ervilhas e queijo burrata enquanto o presidente Donald Trump se preparava para discursar pela primeira vez no evento durante seu mandato.

Mas o som do que parecia ser uma bandeja caindo eram, na verdade, tiros. De acordo com transmissões da CNN e mensagens enviadas por repórteres abrigados sob as próprias mesas de jantar, em questão de segundos o caos tomou conta do que é conhecido como o "Baile de Formatura dos Nerds" de Washington. O terror chegou à porta do salão — no mesmo Washington Hilton onde Reagan foi baleado em 1981 — e o mundo acompanhou o desenrolar da crise pelas lentes dos próprios correspondentes que, subitamente, se tornaram tanto alvo quanto testemunha ocular da história.

Pânico no salão

 

Por volta das 20h35, um homem armado com uma espingarda, uma pistola e várias facas correu em direção a um posto de controle do Serviço Secreto, a apenas 18 metros das portas do salão onde o presidente, a primeira-dama Melania Trump e grande parte da linha de sucessão presidencial estavam reunidos.

O atirador disparou, atingindo um agente do Serviço Secreto no peito, que foi salvo por seu colete à prova de balas. Os agentes revidaram e rapidamente subjugaram o homem, que foi algemado sem camisa no chão.

 

Dentro do salão, o som abafado dos tiros causou pandemônio. O vice-presidente JD Vance e o presidente Trump foram rapidamente retirados do palco por agentes armados. Centenas de jornalistas e oficiais do governo mergulharam para debaixo das mesas, derrubando cadeiras, taças de vinho e pratos. O presidente descreveu que inicialmente achou que fosse o barulho de uma bandeja caindo, mas Melania Trump logo percebeu o perigo, dizendo ser um "barulho ruim".

O perfil do atirador: o "assassino federal amigável"

 

O homem detido foi identificado como Cole Tomas Allen, 31 anos, morador de Torrance, na Califórnia. Longe do estereótipo de um criminoso comum, Allen é formado em engenharia mecânica pela prestigiosa Caltech e mestre em ciência da computação. Trabalhava meio período como tutor, tendo sido eleito o "Professor do Mês" em dezembro de 2024 por sua empresa, e desenvolvia jogos de videogame de forma independente.

 

Vizinhos e conhecidos o descreveram como um "cara completamente normal" e "superestável". No entanto, por trás da fachada de "nerd" tranquilo, Allen nutria um ódio profundo pelas políticas do governo Trump.

Cerca de 10 minutos antes do ataque, ele enviou um manifesto de aproximadamente 1.000 palavras para sua família. No documento, ele se autodenominou o "assassino federal amigável" e listou membros do governo como seus alvos prioritários, poupando curiosamente o diretor do FBI, Kash Patel. Ele classificou seu ato de violência como um ato cristão, escrevendo: "Dar a outra face quando outra pessoa é oprimida não é comportamento cristão; é cumplicidade nos crimes do opressor".

 

Cronologia

Dias antes: Allen viaja de trem de Los Angeles para Chicago, e de lá para Washington, hospedando-se no Washington Hilton com armas compradas legalmente na Califórnia.

20h15 de sábado, horário de Washington DC: Trump entra no salão ao som de "Hail to the Chief".

 

Aproximadamente às 20h35: Tiros são ouvidos no lobby. Allen tenta invadir o perímetro e é derrubado. Agentes gritam "Tiros disparados!" dentro do salão.

20h36: Trump e o vice-presidente JD Vance são evacuados do palco.

21h17: Trump publica em sua rede, a Truth Social, post elogiando o Serviço Secreto e dizendo que o show deveria continuar.

21h36: Seguindo o protocolo de segurança, Trump anuncia nas redes que precisou deixar o local.

22h31: Ainda de smoking, Trump concede uma entrevista coletiva na Casa Branca, adotando um tom surpreendentemente conciliatório com a mídia.

 

Bastidores

O "homem da salada": Enquanto centenas de pessoas entravam em pânico e se escondiam sob as mesas, Michael Glantz, um agente de talentos da CAA, continuou sentado calmamente comendo sua salada de burrata. Ao ser questionado, ele explicou o motivo: tem problemas nas costas e é obcecado por higiene, afirmando que "não havia a menor chance" de deitar seu smoking novo no chão sujo do Hilton.

Mágica Interrompida: O mentalista e mágico Oz Pearlman estava no palco fazendo um truque exclusivo para Trump, Melania e a secretária de imprensa Karoline Leavitt (tentando adivinhar o nome do bebê que ela está esperando) no exato momento em que os tiros começaram. Pearlman contou que fez contato visual direto com Trump por dois segundos e pensou que uma bomba iria explodir.

A previsão macabra: Horas antes, no tapete vermelho, Karoline Leavitt fez uma brincadeira infeliz ao prever como seria o discurso de Trump: "Haverá alguns tiros disparados esta noite na sala", referindo-se a piadas e alfinetadas. A frase envelheceu mal quase que imediatamente e gerou teorias da conspiração nas redes sociais.

O "discurso de amor": Trump confessou que planejava fazer "o discurso mais inapropriado de todos os tempos" para destruir a imprensa presente. Contudo, a experiência de quase morte o fez considerar voltar ao palco (antes do evento ser cancelado) para fazer um "discurso de amor" e união.

 

Frases

"É sempre chocante quando algo assim acontece. Aconteceu comigo, um pouco. E isso nunca muda." — Donald Trump, reflexivo durante a coletiva noturna na Casa Branca.

"O sistema funcionou. Nós estávamos seguros. O presidente Trump estava seguro." — Todd Blanche, procurador-geral em exercício, defendendo a atuação do Serviço Secreto.

"Não espero perdão, mas se eu tivesse visto qualquer outra maneira de chegar tão perto, eu teria tentado." — Cole Tomas Allen, o suspeito, em manifesto enviado à família antes do ataque.

Perguntas e respostas

Houve falha na segurança do evento? Há um intenso debate. O evento não recebeu a classificação máxima de segurança do governo ("Evento Especial de Segurança Nacional"), o que significou que os convidados passaram apenas por detectores de metais para entrar no salão e nenhuma identidade rigorosa foi cobrada na entrada do hotel. Por outro lado, especialistas e membros do governo argumentam que, como o atirador foi parado pelo Serviço Secreto antes de entrar no salão principal, a segurança foi um "sucesso absoluto".

A quem o atirador visava? Embora não tenha citado Donald Trump diretamente pelo nome em seu manifesto, Allen deixou claro que os alvos prioritários eram os membros de alto escalão do governo. O Departamento de Justiça acredita que o presidente era "provavelmente" o alvo principal.

Qual é o estado do agente baleado? O agente do Serviço Secreto foi salvo pelo seu colete à prova de balas, foi levado ao hospital para avaliação, mas já recebeu alta e passa bem.


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