segunda-feira, 4 de maio de 2026

Açúcar refinado não é pior do que o mascavo

 

Colunista

Arte UOL


Sari Fontana

Há quem acredite que o açúcar mascavo é melhor do que o refinado, afinal, o açúcar branco passou por mais processamento. A aparência escura e rústica do mascavo transmite a ideia de algo mais íntegro, menos adulterado. Mas essa crença não se sustenta quando entendemos o que o refino realmente faz.

A cor escura, a textura úmida e o toque de melaço criam um halo de saúde que atrai o consumidor que associa "menos processado" a qualidade melhor. Já falei sobre isso aqui, quando alertei sobre o marketing do açúcar e as trocas inúteis no supermercado. O problema em acreditar que o refino é o vilão é pensar que basta trocar o refinado por outra versão para escapar dos malefícios do açúcar. Não é bem assim.

O que o refino faz

O processo de fabricação de qualquer tipo de açúcar de cana começa com os mesmos passos: a cana é prensada para liberar o caldo, que é então aquecido para evaporar a água, filtrado e concentrado até formar um xarope espesso. Quando esse xarope esfria, surgem os cristais de sacarose naturalmente misturados ao melaço, aquela substância escura e viscosa que confere a cor marrom e o sabor característico do açúcar mascavo.

Para produzir o açúcar branco, o processo inclui a centrifugação, que separa os cristais do melaço, além do uso de alguns auxiliares, como cal, enxofre e carvão ativado — e é exatamente aqui que mora o argumento dos que desconfiam desse tipo de açúcar. Parece muita coisa. Mas é importante saber que essas substâncias são auxiliares de processo, não ingredientes; elas não terminam dentro do produto, porque saem junto com as impurezas e o melaço. Ao contrário da crença popular, o refino não acrescenta compostos tóxicos ao açúcar, como "alvejantes", nem injeta produtos químicos perigosos nos cristais; ele apenas remove o que não é sacarose. O que chega à sua xícara é a mesma molécula presente no açúcar escuro, só que sem o melaço.

 

O que o refino de fato remove, e com muita eficiência, são os minerais e as vitaminas do complexo B que estavam no caldo original. É daí que nasce a ideia de que "o branco perde todas as propriedades (potencialmente) benéficas". Em termos absolutos, isso é verdade: o mascavo tem 1% a 2% de cinzas (minerais), contra menos de 0,04% no refinado. O problema, como veremos a seguir, é que essa diferença é irrelevante na quantidade que as pessoas consomem.

A diferença existe, mas não importa

É verdade que o melaço contém traços de minerais como cálcio, ferro, potássio e magnésio. O problema é a quantidade, que é irrisória: uma colher de sopa de açúcar mascavo contém 99 mg de potássio. Para atingir a recomendação diária do mineral (IDR: 4.700 mg) seria necessário consumir cerca de 47 colheres de sopa de açúcar mascavo — quase um quilo! A mesma lógica vale para os demais micronutrientes. Para obter doses significativas dessas substâncias por meio do açúcar, seria necessário ingerir uma porção excessiva que impactaria negativamente a saúde, comprometendo os potenciais benefícios dessas vitaminas e minerais. Basta conferir as tabelas nutricionais para perceber que o único nutriente presente em quantidade significativa em qualquer tipo de açúcar é o carboidrato.

No fim das contas, tanto o branco quanto o mascavo são digeridos da mesma forma e têm um efeito metabólico praticamente igual: elevam a glicose no sangue rapidamente, com índice glicêmico de cerca de 65 e, em excesso, contribuem para problemas como obesidade, resistência à insulinasíndrome metabólica, além de cáries. O que muda é basicamente a cor — e o preço.

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No Brasil, a recomendação para a ingestão de açúcar segue as diretrizes da OMS (Organização Mundial da Saúde), que aconselha limitar o açúcar adicionado a 10% do total de calorias diárias. Isso significa no máximo 50 gramas por dia em uma dieta de 2.000 calorias. Contudo, estudos indicam que os brasileiros consomem quase o dobro do recomendado.

 

Trocar o açúcar refinado pelo mascavo não garante benefícios práticos, pois a recomendação vale para qualquer tipo, independentemente da cor. E, como ele adoça um pouco menos, é importante ficar atento para não exagerar na dose: se você gosta do sabor do mascavo, use-o com moderação, pela experiência gustativa, não pela ilusão de saúde. Seja qual for a sua escolha, o que mais importa é a quantidade total que você consome.

Eu sou Sari Fontana, química industrial de alimentosfaço avaliações didáticas para ajudar você a comer de forma mais consciente (me siga no Instagram).

 

Como você já sabe, o Guia do Supermercado não é patrocinado por nenhuma marca. Por isso temos a liberdade de criticar, mas também de elogiar os produtos que merecem um lugar no nosso carrinho de compras.

Os produtos apresentados aqui são usados como exemplo ilustrativo, mas as explicações valem para alimentos similares de outras empresas. O mais importante é mostrar para você como interpretar a tabela nutricional e a lista de ingredientes dos alimentos, para fazer boas escolhas.

 

Lembre-se sempre de conferir o rótulo dos produtos que avaliamos, pois o fabricante pode alterar a receita a qualquer momento, adicionando ou substituindo ingredientes.

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