terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O fim da era Maduro, o fator petróleo e o novo tabuleiro sul-americano

 

3.jan.2026 - Um apoiador do presidente Nicolás Maduro segura uma bandeira da Venezuela durante uma manifestação próxima ao Palácio de Miraflores, em Caracas

3.jan.2026 - Um apoiador do presidente Nicolás Maduro segura uma bandeira da Venezuela durante uma manifestação próxima ao Palácio de Miraflores, em Caracas

Federico Parra/AFP


Irineu Machado, do UOL

Bem-vindos à primeira edição da newsletter Olhar Apurado em 2026, onde analisamos o sismo geopolítico provocado pela ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e o sequestro do ditador Nicolás Maduro.

O governo brasileiro foi pego de surpresa na madrugada de sábado, quando o ministro Mauro Vieira teve de comunicar ao presidente Lula que as forças de Donald Trump haviam bombardeado alvos estratégicos e retirado Maduro de um bunker em Caracas. Segundo a colunista Daniela Lima, a reação inicial do petista foi de incredulidade, seguida por uma tentativa frustrada de articular uma resposta uníssona com líderes europeus. A avaliação da diplomacia brasileira é de que o cenário é de "fato consumado"; com a União Europeia rachada e a América Latina desunida, o Brasil agora foca em evitar uma nova escalada bélica e impedir que a crise resulte em uma convulsão social que afete as fronteiras e até as eleições brasileiras.

 

Enquanto Brasília tenta medir os danos diplomáticos, Leonardo Sakamoto alerta que, apesar da imagem humilhante de Maduro como "troféu", o regime chavista permanece vivo. Sakamoto destaca que figuras centrais como a agora presidente interina Delcy Rodríguez, o ministro da Defesa Padrino López e Diosdado Cabello continuam no controle das tropas e da segurança. Para o colunista, a democracia é apenas "purpurina" para o público interno americano; o que está em jogo é o controle direto das reservas de petróleo e a redução da influência russa e chinesa, em um movimento que tem mais "cheiro de acordão" do que de libertação democrática.

Essa percepção de um movimento unilateral de força ecoa fortemente em Pequim. Nelson de Sá aponta que a China elevou o tom, com o presidente Xi Jinping criticando atos de hegemonia que minam a ordem internacional. A narrativa de que Washington não controla totalmente a situação ganha corpo com relatos de que a estrutura do governo venezuelano, liderada por uma "socialista linha-dura" como Delcy Rodríguez, não foi desmantelada, mas sim poupada após um ataque cibernético ter neutralizado as defesas locais.

 

Por fim, para entender como Trump justifica tal agressividade sem o aval do Congresso, Walter Maierovitch explica o uso estratégico da Autorização para Uso de Força Militar. Ao classificar a Venezuela como um "Estado narcoterrorista", Trump dribla as leis americanas para evitar um impeachment, tratando o bombardeio não como ato de guerra, mas como operação policial contra o Cartel de los Soles. Maierovitch conclui que estamos diante de uma ressurreição da Doutrina Monroe, onde os EUA voltam a tratar a América Latina como seu "quintal", violando soberanias e apropriando-se de riquezas sob o disfarce da luta contra as drogas.

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