A morte do aiatolá Ali Khamenei e da cúpula militar iraniana não encerrou a crise no Oriente Médio, mas abriu sua fase mais imprevisível. Um conselho provisório tenta organizar a sucessão, enquanto o poder real se concentra na Guarda Revolucionária, que ampliou o conflito ao atacar Israel e países vizinhos e pressionar rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, com impacto imediato no petróleo e no comércio global. Agora, a questão central não é mais o sucesso tático do ataque, mas se o regime irá ruir sob pressão ou se consolidar como uma ditadura ainda mais militarizada — e quanto custo o Ocidente e a economia mundial suportarão nesse processo. Cúpula do regime como alvo: EUA e Israel lançaram no sábado, à luz do dia, a operação "Fúria Épica" contra Teerã. O aiatolá Ali Khamenei, 86, morreu; com ele, caíram nomes centrais do aparato militar e da Guarda Revolucionária. Retaliação: O Irã respondeu com mísseis balísticos e drones contra Israel — ao menos nove civis morreram em um abrigo em Beit Shemesh (a 30 km de Jerusalém)— e, pela primeira vez neste conflito, atingiu bases americanas no Golfo, com três soldados dos EUA mortos. Impacto na economia: O Estreito de Ormuz passou a ser tratado como zona insegura. Armadores suspenderam rotas, o petróleo do tipo Brent saltou 10% no balcão (para US$ 80) e o fechamento do espaço aéreo regional cancelou milhares de voos. A aposta: Trump disse que busca mudança de regime, sem previsão de uso de tropas terrestres. Transição improvisada: Um comitê provisório (presidente, chefe do Judiciário e um clérigo linha-dura) assumiu interinamente, prometendo "vingança severa". O dia seguinte em TeerãKhamenei comandava a República Islâmica desde 1989. Sua morte não é apenas a remoção de um líder: é a retirada do eixo que, por décadas, equilibrou o clero, a burocracia civil e o núcleo militar e de inteligência do regime. O ataque deixou de ser contenção e virou aposta na queda do regime. Ao bombardear o centro de Teerã, Washington e Tel Aviv transferiram o dia seguinte para quem restou de pé — a população e, principalmente, os militares. Na Al Jazeera, Hassan Ahmadian, professor da Universidade de Teerã, analisa que a consequência imediata é uma guerra com menos freios. A "paciência estratégica" que definiu o modelo iraniano — sanções suportadas, milícias acionadas, custos externalizados — cede lugar a um protocolo de sobrevivência: elevar o preço regional e global da crise antes que o regime seja encurralado. "O Irã aprendeu uma dura lição com a guerra de junho de 2025: a contenção é interpretada como fraqueza", disse Ahamadian. A ofensiva e a ampliação do teatro de guerra A ofensiva contra a cúpula iraniana ocorreu por volta das 9h40 de sábado, no horário local de Teerã. O complexo residencial e de escritórios de Khamenei foi atingido por cerca de 30 bombas. As mortes confirmadas incluem Aziz Nasirzadeh (Defesa), Mohammad Pakpour (Guarda Revolucionária), Abdolrahim Mousavi (Estado-Maior) e Ali Shamkhani (conselheiro de segurança). A retaliação veio em ondas. Israel foi alvo de mísseis e drones; em Beit Shemesh, um impacto direto em um abrigo antibombas matou ao menos nove pessoas e feriu dezenas. Foi ao atingir o Golfo que o Irã alterou o alcance do confronto. Bases americanas em Bahrein, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos foram atacadas. O Comando Central dos EUA confirmou três mortes e ferimentos graves em outros militares. Houve também vítimas civis, incluindo estrangeiros, em pontos atingidos nos Emirados e no Kuwait. Há ainda um grave relato sob disputa: a imprensa estatal iraniana reporta que um bombardeio em Minab atingiu uma escola de meninas, matando cerca de 150 estudantes. A autoria e o balanço de vítimas não têm confirmação independente. Israel diz desconhecer operações no local, e os EUA afirmam investigar o caso. Bastidores da decisãoA escolha do sábado para o ataque não foi casual. O dado operacional. Segundo o New York Times, a CIA vinha rastreando Khamenei e identificou uma reunião presencial da cúpula em Teerã na manhã de sábado. A informação teria sido compartilhada com Israel, alterando o plano: de ataque noturno para ataque diurno, para maximizar a chance de eliminar vários líderes ao mesmo tempo. Pressão política externa. O Washington Post relatou que Trump foi pressionado por Netanyahu e pelo príncipe saudita Mohammed bin Salman. O argumento: se os EUA não agissem com o arsenal já deslocado para a região, o Irã sairia maior do impasse. O movimento prático ocorreu quando a diplomacia ainda estava em cena. O ataque veio dois dias após conversas em Genebra sobre o programa nuclear, encerrando a ficção de que havia um trilho de negociação minimamente estável. Nos EUA, abriu-se outra frente: Trump ordenou a ofensiva sem autorização do Congresso. Democratas e uma ala libertária republicana falam em violação da Lei de Poderes de Guerra e prometem tentar impor uma votação de contenção. O que isso significa: política, petróleo, guerra e riscos Irã: sucessão formal, poder real. Um conselho interino — Masoud Pezeshkian, Gholamhossein Mohseni Ejei e o clérigo Alireza Arafi — assume até a escolha de um novo líder pela Assembleia de Especialistas. Mas a transição formal é o enredo visível. O núcleo decisório tende a migrar para o que ainda opera com cadeia de comando: a Guarda Revolucionária e figuras de segurança como Ali Larijani, já em discurso de "sobrevivência nacional". A verdadeira ameaça desta transição não é a desintegração do país, mas sua militarização absoluta, cenário considerado possível por agências de inteligência dos EUA, segundo o New York Times. Ormuz: interrupções no tráfego e reação dos mercados. O Estreito virou problema de seguro, rota e custo. Armadores como Maersk e Hapag-Lloyd suspenderam navegação. Com isso, o mercado reage antes da marinha: o petróleo do tipo Brent subiu 10% no balcão (para US$ 80 o barril) e a discussão, agora, é de elasticidade — quanto tempo o mundo aguenta antes de o preço romper US$ 100. A Opep+ anunciou aumento de 206 mil barris/dia na produção em abril para conter o pânico, mas isso mitiga volatilidade; não remove risco, de acordo com especialistas ouvidos pela agência Reuters. Limites da defesa aérea e pressão sobre estoques. Israel mostrou capacidade, mas ataques de saturação produzem vazamentos. E mortes. Do lado americano, o gargalo não é só resposta: é estoque de interceptadores e a sustentação logística de uma guerra longa. Escreve o colunista do The Washington Post Max Boot: "Embora os EUA e Israel possuam uma superioridade militar esmagadora para um ataque ao Irã, eles não têm um suprimento infinito de munições. Os estoques de sistemas de armas guiadas dos EUA e de Israel, incluindo interceptores de defesa aérea, já foram esgotados pelos ataques planejados por Trump para 2025 contra o Irã e contra os houthis no Iêmen. Os suprimentos podem ficar perigosamente baixos se os EUA se envolverem em uma guerra prolongada e inconclusiva com o Irã. Isso, por sua vez, poderia criar vulnerabilidades para aliados dos EUA, como Taiwan." Risco à estabilidade regional. Emirados e Qatar sustentavam a imagem de estabilidade à prova de guerra. Drones caindo em zonas urbanas, civis estrangeiros mortos e aeroportos fechados corroem essa percepção — e percepção, no Golfo, é parte do PIB. O céu fechado na região já reorganiza rotas entre Ásia e Europa, com milhares de voos cancelados. Reportagem do New York Times relata: "Nas últimas semanas, os governos do Golfo procuraram publicamente evitar uma guerra entre os Estados Unidos e o Irã, temendo que as consequências se estendessem aos seus próprios países. Seus modelos econômicos dependem da estabilidade regional — e da capacidade de oferecer uma base segura no Oriente Médio para investidores e turistas." O mundo lê o "day after"Trump pediu que os iranianos "assumam o controle" do país. Netanyahu falou diretamente ao povo iraniano, em persa, na mesma direção. Do outro lado, Teerã chama o ataque de guerra de escolha e eleva o tom. Rússia e China condenaram a violação de soberania e tentam se colocar como âncoras do "direito internacional", com a margem de manobra típica de quem não quer o colapso de um aliado, mas também não quer entrar na guerra. Na Europa, a resposta foi dupla: cobrança por mudanças, mas sem atuação militar sua. O contraste aparece também nos editoriais: O The Wall Street Journal vê a ofensiva como resposta necessária para restaurar credibilidade estratégica e alerta que recuar cedo comprometeria o objetivo. O Le Monde chama a guerra de "guerra de escolha" e aponta o salto para a instabilidade; para o The New York Times, o ataque é uma escalada irresponsável e ignora as lições de intervenções anteriores, em que bombardeios não produziram estabilidade duradoura. Perguntas ainda sem respostas- A Guarda Revolucionária aceitará um novo líder religioso forte ou consolidará um comando militar disfarçado de transição teocrática?
- Israel e EUA conseguem sustentar, por semanas, uma defesa antiaérea sob saturação sem entrar na lógica de escalada automática?
- Existe oposição interna capaz de ocupar o vazio -- ou o "apelo ao levante" vira apenas ferramenta retórica externa?
- Quanto tempo o mundo tolera Ormuz como gargalo instável sem contaminar inflação e política doméstica nas grandes economias?
- Rússia e China atuarão para congelar a guerra (por custo) ou para salvar o regime (por estratégia)?
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