A segunda prioridade dos bolsonaristas está adiantada em Washington. Como mostrei essa semana, o Departamento de Estado concluiu a papelada para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês). E apesar da entrada em campo da diplomacia brasileira para barrar a ideia, o governo Lula sabe que esta é uma batalha quase perdida. Trump já fez o mesmo com mais de uma dúzia de facções criminosas e cartéis de narcotraficantes na América Latina. O assunto interessa à agenda doméstica de Donald Trump - que prometeu acabar com o tráfico de fentanyl e com a imigração ilegal ao país - e também dá a ele justificativa diante da opinião pública para ações de força no continente. A Casa Branca apelou ao expediente (que não serve de fundamento legal à luz do direito internacional) tanto para bombardear supostas embarcações no Mar do Caribe quanto para decapitar o governo da Venezuela, com a retirada militar de Nicolás Maduro do país em janeiro passado. A possibilidade entusiasma os bolsonaristas e dá calafrios no governo Lula. No Brasil, historicamente, o tema da segurança pública é visto como aquele em que a direita se sai bem, enquanto a esquerda costuma ser acusada de "proteger bandido". Flávio Bolsonaro se apressou a dizer que sentia "inveja" dos bombardeios americanos no Caribe, e que gostaria de ver o mesmo se repetir com traficantes na Baía da Guanabara. E jogou Lula no pouco auspicioso lugar de candidato de esquerda que rechaça supostas soluções duras (embora questionáveis) contra a violência urbana. Mas a importância da questão supera o debate eleitoral. Em que pesem os argumentos técnicos do Planalto de que narcotraficantes não são motivados em seus atos violentos por aspectos ideológicos/religiosos/étnicos que caracterizam o conceito de terrorismo e buscam tão somente o lucro ilícito, o ponto mais delicado do debate está na soberania nacional. Auxiliares de Lula me perguntaram: "o que conteria os EUA se eles decidirem fazer com o Brasil o que fizeram com a Venezuela?" Quando rebati aos bolsonaristas a mesma questão, nova surpresa. "O risco Venezuela existe, sim. Claro que quando você convida alguém muito mais forte do que você a atuar no seu território, ele pode chegar pra ficar, tentar tomar o poder. Mas o risco vale a pena", me disse um dos mais próximos auxiliares de Flávio, que percebe a população brasileira ansiosa para ver "mísseis tomahawk lançados sobre o Comando Vermelho". Em janeiro, o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esteve em Washington D.C. para um tour no qual foi apresentado como o herdeiro do movimento político populista de direita pelo irmão, Eduardo, ao segundo escalão do Departamento de Estado e da Casa Branca. Funcionários do governo de Donald Trump têm acompanhado com atenção as insuspeitas pesquisas eleitorais que mostram Flávio em empate técnico com Lula. O entusiasmo de Darren Beattie, conselheiro-sênior de política para Brasil do Departamento de Estado, que priorizou um pedido de visita a Bolsonaro na Prisão da Papudinha, em Brasília, a agendas com representantes do governo brasileiro é prova do engajamento de parte do trumpismo no pleito do Brasil. Beattie acabou tendo tanto a visita quanto o visto cancelados após acusação de "ingerência política" e de "má-fé" na justificativa para o pedido de entrada no Brasil. Em fevereiro, em visita ao Departamento de Estado, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, pré-presidenciável pelo PSD, chegou a ouvir de um dos diplomatas americanos que a estratégia de dividir a direita não lhes parecia a ideal. "Qualquer centavo gasto em ataques entre candidatos de direita, é um centavo a menos gasto contra Lula", disse este diplomata, demonstrando claro interesse em evitar divisão da direita. No fim de março, Flávio virá de novo aos EUA discursar em um evento no qual estará Donald Trump. Pode ser a primeira vez em que ambos estarão juntos. Neste momento, os bolsonaristas esperam entender se, além de seus funcionários, o próprio Donald Trump vai, de fato, decidir apoiar a campanha de Flávio - e se o fará nos termos que os bolsonaristas desejam. |
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