Causou alguma estranheza no Palácio do Planalto que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tenha mencionado a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, ao longo de uma hora e 20 minutos de conversa com o presidente Lula. A decisão, tomada apenas 17 dias antes da ligação entre os líderes, tinha sido motivada pela demora do Brasil em aceitar formalmente a indicação do deputado da Flórida Daniel Perez para embaixador dos EUA no Brasil. Foi o que informou o Departamento de Estado, em uma chamada com jornalistas na qual estavam presentes opositores do governo Lula radicados nos EUA, como os comunicadores Paulo Figueiredo e Allan dos Santos. Em sabatina no Senado americano, em julho, Perez, próximo ao Secretário de Estado Marco Rubio, afirmou que defenderia "condições para eleições livres e justas" no país, o que foi lido em Brasília como potencial intenção de interferência eleitoral. Semanas depois, a um canal de televisão na Flórida, ele disse que não iria se "envolver" na decisão dos brasileiros. Segundo o UOL apurou, o Departamento de Estado já vinha ameaçando Viotti com medidas punitivas por semanas até que ela foi comunicada por um constrangido diplomata norte-americano que, embora fosse uma "colega perfeitamente adequada", sua autorização de entrada no país estava oficialmente revogada. A ação era inédita na relação bilateral de 201 anos e um ato de hostilidade, mas Donald Trump não parecia ciente disso ao falar com Lula. Para pessoas que participam da dinâmica entre os dois governos em Washington, não era jogo de cena. Trump efetivamente desconhecia a situação. Seria mais uma obra dos chamados "kids in the mid management", ou, em bom português, "os moleques da burocracia média": indicados políticos de extrema-direita em postos com graus variados de autoridade e autonomia e que, frequentemente, emplacam decisões acima de sua faixa salarial. Para Jeffrey Goldberg, diretor da influente revista americana The Atlantic, o episódio com o Brasil não é um acidente ou uma exceção. "É um erro tentar entender as ações do governo Trump sob a ótica de conspiração, quando é possível analisá-las pelo prisma da estupidez e da incompetência", afirmou Goldberg ao ser informado sobre os detalhes do episódio, em entrevista ao UOL, dias antes de embarcar para o Brasil, onde participará do festival Piauí de Jornalismo, entre os dias 5 e 6 de setembro. Baseado em Washington D.C. e dedicado a oferecer explicações sobre o governo Trump aos americanos e ao mundo, Goldberg reconhece as dificuldades da tarefa. "Nós, no jornalismo, estamos sempre em busca de coerência, mas muitas vezes não há lógica na forma como as coisas acontecem", diz. "Há pessoas no governo (Trump) que comandam diferentes departamentos e definem políticas; às vezes, o presidente toma conhecimento dessas políticas e concorda com elas; outras vezes, não concorda; e, em alguns casos, simplesmente não se importa. Às vezes, esses departamentos tentam adivinhar o que o presidente desejaria — caso ele se importasse — e agem com base nisso, apenas para descobrir que o presidente pensa de outra forma. Lembre-se: não existe uma liderança estável nos Estados Unidos — e digo isso literalmente. É uma gestão bipolar e o que Trump diz hoje não tem importância alguma amanhã", resume Goldberg. Poucas pessoas viveram pessoalmente situações tão exemplares e reveladoras do que seria o segundo mandato de Donald Trump à frente da Casa Branca. Em março de 2025, ele foi indevidamente incluído em um seleto grupo no aplicativo de conversa Signal. Estavam ali o vice-presidente JD Vance, fazendo questionamentos semi-isolacionistas, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, pró-intervenção bélica, e o subchefe de gabinete Stephen Miller, que encerrou discussões ao dizer que o ataque aconteceria porque "o presidente quer". Ao vir a público, a presença de um jornalista em um grupo de aplicativo comercial em que altas autoridades dos EUA discutiam temas sensíveis da segurança nacional, a história se tornou um escândalo. E Goldberg se converteu em alvo de todo tipo de ataque do governo dos EUA. "Observam-se muitos comportamentos recorrentes neste incidente e na forma como reagiram a ele. Uma certa falta de rigor, ataques à imprensa em vez de lidar com a essência do ocorrido, as disputas ideológicas dentro do governo sobre como lidar com o mundo", diz Goldberg, que segue: "Creio que está bem claro para nós que J.D. Vance não teria atacado o Irã da maneira como Trump fez. Ele concordou com a ideia, porque ele concorda com tudo, mas acho que entendemos que a sua inclinação é sair do Oriente Médio, e não se aprofundar ainda mais na região", diz o diretor da The Atlantic, referindo-se à guerra do Irã que recém completou 6 meses, a despeito da previsão inicial de Trump de que duraria "algumas semanas" e de suas reiteradas afirmações de vitória e "obliteração total" do regime islâmico, assim como fez com os Houthis após o ataque no Iêmen (os Houthis, porém, seguem ativos e apoiando militarmente os iranianos na região). "Outro detalhe — que talvez não seja tão pequeno assim — é que, como se viu na conversa, eles estavam tendo uma discussão acalorada quando Stephen Miller entrou e disse (pelo menos foi o que ouvi) que o presidente queria atacar. Estou parafraseando, mas você entende. E aí todo mundo simplesmente aceitou: "Ok, vamos fazer isso". Ou seja, Stephen Miller é quem realmente impõe as decisões; ele é uma figura de grande poder na Casa Branca", nota Goldberg, referindo-se ao jovem auxiliar de Trump que, entre outras medidas, é o responsável pelas políticas anti-imigração de Trump. De acordo com Goldberg, Trump se move pelo próprio ego, e por seu desejo de ganhar "o jogo", a disputa que estabelece cotidianamente com diferentes interlocutores. Ele próprio esteve nesta posição. Depois do escândalo do grupo do Signal, Goldberg foi convidado por Trump a ir à Casa Branca conversar com ele. Apenas 3 horas antes da reunião, o presidente o atacou duramente em sua rede social, o Truth Social, ao dizer que Goldberg era um jornalista de pouco sucesso, autor de histórias "ficcionais". O diretor da revista chegou a ser desaconselhado de ir à Casa Branca naquele dia, mas manteve a programação. "Então, entro no Salão Oval e ele diz: "Ei, Jeff, tudo bem?" E pergunto: "Sr. Presidente, do que se tratava aquela história da Truth Social?" E ele responde: "Ah, eu só estava tentando deixar você alerta".É só um jogo! Um jogo", diz Goldberg. "Se você nos visse conversando, jamais imaginaria que eu escrevi contra a presidência dele durante anos, ou que ele escreveu insultos terríveis sobre mim nas redes sociais. Se quiser entender Donald Trump, assista à luta livre profissional. Porque ele é uma performance de raiva", segue o jornalista. Isto não significa, porém, que Trump não tome decisões duras e agressivas e as aplique no mundo real. Quando pergunto a Goldberg quão preocupados os brasileiros deveriam estar sobre as possíveis intenções dele de intervir em eleições no Brasil ou quem sabe até atacar militarmente o país, depois de designar como "terroristas" duas das maiores facções criminosas brasileiras, ele diz que é impossível oferecer qualquer certeza. "Quem quer que lhe diga o que vai acontecer no futuro das relações entre os EUA e o Brasil ou sob o governo de Donald Trump não faz a menor ideia do que está falando. É possível apenas apresentar um leque de possibilidades sobre o que pode acontecer", diz Goldberg. Feita a ressalva, ele prossegue: "Com base em experiências passadas, é preciso dizer que a interferência (na eleição do Brasil) é uma possibilidade real. Mas, ao mesmo tempo, é preciso lembrar que essas pessoas são *trolls* da internet. E quando é que a *trollagem* na internet se torna algo real? Não sei. Mas sim, obviamente, eles são capazes de interferir". O diretor da Atlantic reconhece que ao menos parte da administração americana está comprometida com a candidatura de Flávio Bolsonaro, mas não necessariamente toda a máquina. "Obviamente, os Bolsonaro são favoritos da facção de Trump. E, assim como aconteceu na Colômbia e em outros países (que elegeram governantes à direita), isso torna a América do Sul — a América Latina — mais favorável sob a perspectiva de Trump". "O mesmo ocorreria, obviamente, com o retorno dos Bolsonaro", disse Goldberg, três dias antes de Trump dizer publicamente que tinha "boa relação" com o Brasil e assinalar que a região está indo mais para a direita e ficando mais próxima dos EUA. "Se você me perguntasse há algum tempo se os EUA iriam invadir a Groenlândia, minha resposta padrão seria: 'você está drogado?'. Já não é mais assim. Então, se eu fosse um brasileiro de centro que se importasse apenas com a independência das nossas eleições, mesmo que eu não gostasse do resultado, eu olharia para a Venezuela e diria: 'Hummmm…'(preocupação). Claro, o Brasil é muito maior e mais sofisticado, mas se você é um cidadão brasileiro, tem que pensar: 'Não sei, talvez o Trump interfira diretamente'. Se você é venezuelano, você tem que pensar: 'o Trump vai simplesmente tomar nosso petróleo'. Se você é dinamarquês, tem que pensar que o Trump pode realmente invadir a Groenlândia", conclui Goldberg. |
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