O presidente Lula disse hoje, no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém." A frase pode ser lida como uma referência a declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que mais de uma vez sugeriu entender a América Latina como parte do "quintal" dos EUA. Em pouco menos de 22 minutos, além de defender a soberania brasileira em temas como o combate ao crime organizado e o caráter público e gratuito do Pix, Lula reafirmou a importância do multilateralismo na política internacional, criticou as grandes potências e chamou de genocídio a ofensiva de Israel na Faixa de Gaza. Donald Trump discursou logo após o brasileiro. O presidente americano disse que poderá voltar a usar a força na América Latina para "proteger" os EUA e afirmou que não medirá esforços para defender os interesses americanos. Os dois presidentes, porém, não se encontraram nem se cumprimentaram nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, informa Mariana Sanches. "Diplomatas ouvidos pelo UOL dizem que nem encontros nem desencontros acontecem fortuitamente. Algum dos dois, portanto, preferiu evitar o contato hoje." Para João Paulo Charleaux, embora Lula tenha abordado temas ligados ao debate político nacional, boa parte do discurso foi dirigida à comunidade internacional. "Ele falou para um tipo de eleitorado que é a comunidade internacional. A ONU tem 195 países. A gente fica muito focado no que os Estados Unidos pensam, em algumas potências europeias, China e Rússia, mas tem um mundo inteiro sofrendo das mesmas mazelas que o Brasil." Josias de Souza disse que Lula fez um bom discurso e gabaritou a pauta eleitoral brasileira. "Falou tudo o que inquieta os democratas no Brasil. Falou que a democracia está em xeque, falou de ingerência externa no processo eleitoral, falou do Pix, das Bets, da escala 6 por 1, do feminicídio e da defesa das mulheres." Para Josias, Lula disse na ONU o que vem dizendo nos palanques brasileiros, mas "isso não tem sensibilizado o eleitorado". Leonardo Sakamoto viu uma semelhança nos discursos de Lula e Trump: ambos tiveram o público interno como alvo. O sentido das falas, porém, foi oposto: "Lula, pelo multilateralismo; Trump, pelo poder do mais forte." "O abismo entre os projetos de mundo é evidente. De um lado, a tentativa de resgatar um pacto coletivo, com foco na desigualdade e nos direitos humanos; do outro, a pregação do America First, em que a força bruta substitui o direito internacional." Na esteira da reunião da ONU, Janaína Figueiredo informa que o governo americano organizou uma reunião com países latino-americanos com governo de direita que integram o Escudo das Américas. Sob o pretexto de combater o narcotráfico, a iniciativa prevê o compartilhamento de inteligência estratégica e operações militares coordenadas, em alguns casos, envolvendo tropas americanas. "Para o governo Lula, a iniciativa representa uma clara ameaça de ingerência dos EUA em temas internos do país, com potenciais e graves consequências internas", diz Janaína. |
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