Mona Lisa Santana, 32 anos, comemorou cada novo cartão de crédito como uma pequena conquista pessoal. "A sensação era de vitória, de bem-estar, parecia um video-game." Com os cartões, vieram os acessos fáceis ao crédito. Limites de R$ 50 mil, R$ 60 mil, R$ 150 mil foram dados sem que os bancos checassem a sua renda, conta. "Era autodeclaratório, eu colocava qualquer valor lá", diz. "O limite do cartão era como um jogo. Era uma sensação de 'Meu Deus, consegui mais um'", relembra. "Quando chegou um de 150 [mil reais], pensei: 'consigo comprar um apartamento com um cartão de crédito'. Eu me sentia milionária mesmo. Como se o dinheiro fosse meu." Foi a partir da pandemia, quando a família perdeu renda, que Santana acumulou 44 cartões de crédito de bancos tradicionais, digitais e de lojas, para manter o padrão de vida de todos. Ela relata que conseguia crédito em seu nome, da irmã e da mãe, sem precisar de autorização. "Eu sabia os dados de cor, colocava meu email e meu telefone nos contatos, elas não faziam ideia." Usava um cartão para cobrir o outro ou pegava um empréstimo para pagar o mínimo da fatura de um dos cartões. Nisso, os juros sobre juros transformaram a dívida dela em um bolo de R$ 1,4 milhão. A história de Santana tem um enredo que ilustra os dados por trás do endividamento e da inadimplência recordes. A facilidade de acesso ao crédito, especialmente nos anos de pandemia, levou muitos brasileiros a se endividarem quando se viram sem renda em meio à crise econômica e sanitária. A taxa básica de juros, a Selic, caiu a 2% naquela época. Hoje, está em 13,75%. A inflação oficial do país acumulou uma variação de 43,27% de março de 2020 a julho deste ano, elevando o custo de vida. O empréstimo foi ficando mais caro, corrigido pela taxa básica de juros, e o dinheiro foi perdendo poder de compra. O caso de Santana não é isolado. Em julho, havia no país 83,9 milhões de pessoas com dívidas atrasadas há mais de 90 dias, o que representa pouco mais da metade (51%) da população adulta. Desde dezembro de 2025, esse número não para de bater recordes. O problema virou tema central no debate eleitoral e fez com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscasse lançar propostas de última hora para contorná-lo. Para compreender o tamanho da crise, o UOL mergulhou no assunto nas últimas três semanas e, agora, publica a série de reportagens especiais "Brasil Endividado". |
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