Além da fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos e da divulgação da carta em que o candidato derrotado por mais de 4 milhões de votos se declarou "o verdadeiro presidente eleito", a semana pós-eleição foi marcada por episódios de intolerância política em todo o país. Em Fortaleza, a juíza do Trabalho Manuela de Albuquerque Viana determinou a imediata reintegração de 22 funcionários que teriam sido demitidos de uma confecção logo após a eleição por perseguição política, relata Carlos Madeiro. O dono da empresa, Gutemberg Bittencourt, disse ao UOL que as acusações são falsas. Na decisão, porém, a magistrada afirma que houve "comprovação documental" da perseguição aos funcionários e menciona a colocação de "cartazes depreciativos no interior da fábrica". Reportagem da Folha de S. Paulo relata vários episódios de bullying com motivação política entre alunos de escolas em diferentes cidades. "A maioria dos casos aos quais a Folha teve acesso é de filhos de apoiadores de Bolsonaro direcionando ofensas, ameaças e xingamentos a estudantes filhos de defensores do candidato petista", afirma o jornal. Pelo menos um dos casos, no Distrito Federal, é investigado pela polícia, segundo a Secretaria de Educação. Em São Paulo, Thaís Bilenky relata que Silvana Gimenes foi demitida pelo governo Tarcísio de Freitas do cargo de coordenadora de Desenvolvimento de Programas da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência dois dias após criticar a fala de Flávio Bolsonaro chamando Lula de "nove dedos". "Ao ouvir o 22 [número de urna de Flávio] chamar Lula de 'nove dedos', apenas constatei o que sempre digo. O preconceito, o racismo, o capacitismo, a LGBTfobia podem estar escondidos, mas sempre vêm à tona", escreveu Silvana Gimenes, que é pessoa com deficiência, no sábado. Ela foi demitida ao chegar ao trabalho na segunda-feira de manhã. A Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência afirmou, por meio de nota, que "a exoneração da então titular decorreu de ajustes administrativos na secretaria". Em Vitória, a advogada Júlia Gobbo Amorim, assessora jurídica da OAB-ES, publicou um vídeo nas redes sociais dizendo que iria "dificultar a vida de petistas". "Aqui na OAB tem muita gente petista. E eu tô com preconceito." Ela foi demitida. Em nota, a OAB-ES afirmou que "não tolera manifestações discriminatórias nem ataques que diminuam pessoas em razão de suas convicções políticas". Amorim não foi encontrada pelo UOL até o envio desta newsletter. Também nas redes sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) defendeu o boicote a empresas e artistas que tenham apoiado a candidatura de Lula. "Temos o direito de escolher para onde vai o nosso salário", disse Nikolas. Josias de Souza classificou as declarações de Nikolas Ferreira como "discurso odioso de quem não sabe conviver com a democracia". "É muito triste ver um representante da sociedade com esse tipo de pregação. Ele está representando um movimento político que não aceita o mais básico da democracia. Não sabe perder. Esse é o pior de um dos defeitos de um político." Segundo Leonardo Sakamoto, até ontem, o Ministério Público do Trabalho recebeu 3.529 denúncias de assédio eleitoral em 2026. O número já supera as 3.373 registradas em toda a eleição de 2022. "Mais de mil delas chegaram depois de 26 de outubro, isto é, quando já não havia mais voto a ser comprado ou coagido. É vingança." Para Wálter Maierovitch, a perseguição e as ameaças contra pessoas que votaram pela reeleição do presidente Lula (PT) configuram "fascismo" e precisam de reação do Estado. " São casos policiais. (...) Nós temos que ter um Ministério Público, quer o Federal, quer o dos estados, quer a Polícia Federal, quer as polícias estaduais, reagindo também." |
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