O presidente e candidato à
reeleição Luiz Inácio Lula da Silva foi entrevistado na noite desta
quinta-feira, 27, no Jornal Nacional. O Estadão
Verifica, núcleo de checagem de fatos do Estadão, analisou a
veracidade das alegações feitas pelo presidente ao longo da entrevista.
Foram consideradas apenas
afirmações factuais, como números, datas, comparações de grandeza e outras. A
depender da apuração, podemos atribuir as etiquetas “falso”, “enganoso”,
“exagerado”, “subestimado”, “impreciso”, “falta contexto” e “verdadeiro”.
A assessoria do presidente foi
contatada para comentar a checagem e o texto será atualizado se houver
resposta.
Veja o resultado abaixo.
Crimes no INSS
O que Lula disse: que
a quadrilha para fraudar o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) foi
formada em 2019, inclusive com participação do ministro da Previdência daquela
época. Ele acrescentou que o governo atual passou dois anos investigando os
crimes.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é enganoso. Como mostrou o Estadão Verifica, o relatório de
investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) apontou
um prejuízo de R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos de benefícios do INSS
entre 2019 e 2024, que foi o período investigado. Mas o relatório não apontou
quando exatamente o esquema começou, embora haja menção no documento a
descontos indevidos já em 2016. Em 2023, primeiro ano do governo Lula, o
ministro da Previdência era Carlos Lupi. Ele foi alertado das fraudes ainda naquele ano, durante
reunião no Conselho Nacional de Previdência, mas o tema só voltou a ser tratado
no ano seguinte. A Polícia Federal começou a investigar as fraudes em abril de
2025. Lupi deixou o governo uma semana depois.
Devolução a aposentados e
pensionistas
O que Lula disse: que
o governo pagou R$ 3,5 bilhões a 5 milhões de aposentados e pensionistas que
tiveram descontos indevidos.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é impreciso. O INSS pagou, em um ano, R$ 3,26 bilhões a 4,8 milhões de aposentados e pensionistas que
tiveram descontos indevidos em seus benefícios previdenciários. O reembolso às
vítimas começou em julho de 2025.
O que Lula disse: que
não tem um aposentado que foi vítima da fraude no INSS que não foi ressarcido
pelo governo
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é enganoso, pois cerca de 659.920 aposentados e
pensionistas aptos a receber o ressarcimento ainda não aceitaram o acordo para
reaver os valores descontados indevidamente de seus benefícios previdenciários.
O número de pessoas que ainda não haviam aderido à medida foi informado
ao jornal Extra em junho. A adesão ao acordo depende do
segurado.
Fila do INSS
O que Lula disse: que
a fila do INSS chegou a ter 3 milhões de pessoas e será zerada.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é verdadeiro, em partes. Em janeiro deste ano, a fila
era de 3,073 milhões, e o pico em 2026 foi atingido em fevereiro, com 3,128
milhões de pessoas na espera. Nesta semana, durante a 328ª reunião do Conselho
Nacional de Previdência Social (CNPS), foi anunciada uma queda de 59% no tamanho da fila, chegando
a 1,282 milhão de pessoas, o menor patamar desde 2023. Não é possível afirmar,
neste momento, se a fila realmente será zerada no atual governo, como disse o
candidato. O diretor de Benefícios do INSS, Leonardo Bittencourt, disse que o
tempo médio de resposta para a concessão de um benefício está em 35 dias, e que
a preocupação do órgão é com pedidos há mais de 45 dias na fila – atualmente,
são 261 mil nesta condição.
Banco Master
O que Lula disse: que
o Banco Master causou prejuízos de R$ 60 bilhões.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é verdadeiro. O valor se refere ao rombo causado no Fundo Garantidor de Crédito (FGC),
que teve de ressarcir quem investiu no banco.
Superávit em todos os anos
O que Lula disse: que
ele foi o único presidente do Brasil e do G20 a ter superávit primário durante
os oito anos dos seus primeiros mandatos.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é enganoso. Embora seja verdade que o Brasil
registrou superávit em todos os anos dos primeiros dois mandatos de Lula,
a Argentina também teve resultados positivos em todos os anos desse mesmo
período, como mostrou o Poder360. A Argentina também faz parte do G20, o grupo das 20 maiores
economias do mundo.
Crescimento do PIB
O que Lula disse: que
o Brasil estava há mais de 10 anos sem crescer. E que o Produto Interno Bruto
(PIB) do País só voltou a crescer acima de 2% após o seu retorno à Presidência
da República, em 2023.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é falso. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), o PIB cresceu 3% em 2022 em relação ao ano
anterior. Em 2021, o crescimento foi de 4,6%.
O que Lula disse: que
o PIB cresceu 7,5% em 2010, durante o segundo mandato dele.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é verdadeiro. No acumulado no ano de 2010, em relação ao
mesmo período de 2009, o PIB variou 7,5%. Os dados são do IBGE.
Dívida dos EUA
O que Lula disse: que
a dívida pública dos Estados Unidos é de US$ 40 trilhões, equivalente a 120% do
PIB.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é verdadeiro. A dívida americana ultrapassou essa marca em 19 de agosto deste ano.
Presidentes do Banco Central
O que Lula disse: que
o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso trocou o presidente do Banco Central
três vezes.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é impreciso. De 1995 a 2002, quatro pessoas ocuparam o cargo de presidente
do BC: Gustavo Franco (em duas ocasiões), Persio Arida, Gustavo Loyola e
Armínio Fraga.
Herança da gestão anterior
O que Lula disse: que
herdou o governo em janeiro de 2023 com déficit fiscal de 2,8%.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é falso. De acordo com dados oficiais, o governo central teve superávit
fiscal de cerca de 0,6% do PIB em 2022, no último ano do governo Bolsonaro.
Esse resultado, porém, foi marcado por manobras fiscais, como um calote em
precatórios e o adiamento do pagamento de compensações a Estados pela
desoneração dos combustíveis.
O que Lula disse: que
o governo anterior deixou um rombo de R$ 94 bilhões de dívidas, que a gestão
dele teve que pagar.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é impreciso. O valor mencionado por Lula tem relação com
a PEC dos Precatórios, proposta em 2021 para abrir um espaço
de R$ 91,6 bilhões no Orçamento de 2022. Desse total, R$ 44,6 bilhões eram
referentes a dívidas do governo federal (precatórios) e R$ 47 bilhões
relacionados a mudanças no teto de gastos. A PEC da Transição, mencionada por Lula no JN, liberou R$ 145
bilhões além do teto de gastos para uso do novo governo.
Terras raras
O que Lula disse: que
o Brasil é o país com maior reserva de terras raras, atrás da China.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é verdadeiro. O Brasil tem reservas estimadas em 21 milhões de toneladas; a China, 44
milhões de toneladas.
Fome
O que Lula disse: que
acabou com a fome no Brasil duas vezes.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é verdadeiro. O Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura (FAO) em duas ocasiões: em 2014 e 2025. Ambas
durante os governos de Lula. O dado significa que, em média, menos de 2,5% da
população estava em situação de subalimentação.
Alfabetização
O que Lula disse: que
fez um pacto com prefeitos para alfabetização de crianças na idade certa. No
primeiro ano do acordo, o nível de alfabetização chegou a 66%.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: é verdadeiro. O compromisso virou lei em novembro de 2025. Em março de 2026, o governo
federal anunciou que o Brasil havia superado a meta de 64% de crianças
alfabetizadas até o final do segundo ano do ensino fundamental. O porcentual registrado em 2025 foi de 66%. O índice a ser
alcançado em 2026 é de 67%.
Evasão escolar
O que Lula disse: que
seu governo criou o programa Pé-de-Meia, garantindo uma poupança para o jovem
não desistir da escola. O projeto diminuiu a evasão escolar em mais de 60%.
O Estadão Verifica checou e
concluiu que: falta contexto. Embora tenha sido implementado como
política pública no governo Lula, por meio da Lei nº 14.818, de 16 de janeiro de 2024, o programa
Pé-de-Meia teve origem no Congresso Nacional, no PL 54/2021, de autoria de 16 deputados federais. Sobre a
evasão escolar, de fato houve queda de 61% no ensino médio público entre 2022 e 2025. Mas o
ministério da Educação na época afirmou que isso refletia “uma combinação de
políticas públicas direcionadas à aprendizagem, permanência e aprimoramento das
condições de oferta da educação básica”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário