quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Uso de IA como apoio emocional acende alerta para a importância do cuidado humano



O uso de ferramentas de inteligência artificial para desabafar, buscar conselhos ou lidar com sentimentos como solidão, ansiedade e tristeza tem chamado a atenção de profissionais da área da saúde mental. Embora estejam disponíveis a qualquer momento e produzam respostas imediatas, essas tecnologias não devem ser confundidas com atendimento psicológico.

Para Fabrício Otoboni, professor de Psicologia da Wyden, a principal preocupação está na substituição do contato humano por respostas produzidas automaticamente. Segundo ele, uma ferramenta tecnológica não possui formação clínica, responsabilidade ética nem capacidade para compreender integralmente o sofrimento emocional de uma pessoa.

“Uma inteligência artificial produz respostas com base em padrões e informações disponíveis em sua base de dados. Ela não conhece verdadeiramente a história daquela pessoa, não estabelece um vínculo terapêutico e não consegue compreender todas as particularidades envolvidas em seu sofrimento”, explica o professor.

Fabrício destaca que a psicoterapia não se resume à oferta de conselhos, respostas prontas ou palavras de acolhimento. O trabalho do psicólogo envolve escuta qualificada, acompanhamento contínuo, análise do contexto e utilização de métodos reconhecidos cientificamente.

“Durante o processo terapêutico, o profissional observa não apenas o que é dito, mas também os silêncios, as contradições, as mudanças de comportamento e a forma como cada pessoa constrói suas relações. Esse cuidado exige formação técnica, compromisso ético e responsabilidade na condução do atendimento”, afirma Otoboni.

Outro ponto de atenção é a possibilidade de a inteligência artificial reforçar interpretações equivocadas ou validar determinadas percepções sem considerar seus impactos. Como as respostas são elaboradas a partir das informações fornecidas pelo próprio usuário, a ferramenta não consegue realizar uma avaliação clínica nem identificar, com segurança, a complexidade de cada situação.

“A inteligência artificial não deve ser tratada como psicoterapia. Em situações de sofrimento emocional persistente, é fundamental procurar um psicólogo ou outro profissional de saúde capacitado, que possa avaliar o caso de forma individualizada e indicar o acompanhamento adequado”, reforça o professor. 

Alterações prolongadas no sono ou no apetite, isolamento social, dificuldade para realizar atividades cotidianas, queda no rendimento acadêmico ou profissional e sofrimento emocional intenso são sinais que merecem atenção. Nesses casos, o acompanhamento profissional permite que a pessoa seja acolhida em sua individualidade e tenha acesso a um cuidado baseado em conhecimento técnico, ética e vínculo humano.


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