sábado, 26 de setembro de 2026

As cenas inusitadas (e humanas) de uma reunião de chefes de Estado em NY

 

23.set.2026 - Assembleia Geral da ONU, na sede da instituição, em Nova York, nos EUA.

23.set.2026 - Assembleia Geral da ONU, na sede da instituição, em Nova York, nos EUA.

Zhang Fengguo/Xinhua



Pouco antes do início dos 40 minutos do discurso de Donald Trump, na abertura da Assembleia Geral da ONU, na última terça (22), a presidente interina da Venezuela Delcy Rodríguez se levanta de uma das seis cadeiras a que cada país tem direito na platéia.

Depois de 75 passos apressados, e de atravessar o equivalente a 31 países, ela chega ao seu destino: se posta ao lado do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, que falava ao celular. Sem graça, ela acena e manda um beijinho.

Sánchez não parece reconhecê-la inicialmente, mas após alguns segundos, levanta, a cumprimenta com dois beijos constrangidos e se senta novamente. Para lideranças globais de esquerda, como Sánchez, Delcy realmente pode parecer irreconhecível.

Há sete anos, em 2019, na condição de vice-presidente da Venezuela, ela subiu ao mesmo púlpito da ONU, e acusou o então presidente dos EUA Donald Trump, em seu primeiro mandato, de "terrorismo econômico" contra seu país.

De lá pra cá, Delcy se tornou a líder da Venezuela depois que, em janeiro, Trump retirou Nicolás Maduro militarmente de Caracas. Na prática, ela governa sob orientações do secretário de Estado dos EUA Marco Rubio. Em 2026, sete anos depois de acusar Trump, saiu em foto sorridente a seu lado, com os dedos em "V" de vitória, depois de uma rápida reunião.

Se Delcy estava disposta a aplaudir Trump esse ano, os aplausos não foram a tônica geral das reações depois que o americano falou. As delegações de Cuba (chamada de "Estado falido" por ele) e do Irã (que Trump ameaçou "aniquilar"), aliás, se retiraram enquanto o republicano falava. Na diplomacia, quando uma delegação se retira durante um discurso é sinal de protesto formal para indicar forte desaprovação ou condenação ao orador e a seu governo, sem necessariamente romper totalmente os laços diplomáticos.

Do outro lado, foi a primeira vez na história em que o presidente de um país em guerra com os EUA se apresentou para discursar em Nova York. Há 6 meses, Masoud Pezeshykian governava o país de um bunker em Teerã, tentando escapar dos bombardeios dos EUA que mataram muitos dos seus antecessores na linha de comando.

Essa semana, ele foi escoltado pelo serviço secreto do país para poder criticar Trump em discurso na plenária: "O presidente dos Estados Unidos nos descreveu como terroristas. Nós fomos vítimas do terrorismo", disse ele, e seguiu: "Nosso povo inocente foi alvo de ataques covardes e agressões, e nos defendemos com toda a nossa força." Aí foi a vez do único diplomata presente na delegação americana se retirar e sair.

Mas ninguém provocou tanto protesto quanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Quando ele começou a falar, as delegações de 75 países, incluindo Brasil, Espanha, Turquia e África do Sul, se levantaram para deixar a plenária. Eram tantos diplomatas de partida que formou-se uma longa fila indiana na saída da sala.

Algumas interações - ou quase - não têm significado tão óbvio, embora sejam curiosas. As imagens em que o secretário de Estado Rubio parece tentar alcançar o presidente brasileiro Lula e gesticula com o chanceler Mauro Vieira foram parar até nas TVs do Chile, com questionamentos sobre se Lula deliberadamente evitou Rubio.

Embaixadores brasileiros que testemunharam a cena me garantiram que a explicação é muito mais prosaica do que politicamente picante: na confusão e barulheira de centenas de pessoas, "o presidente não reconheceu nem viu Marco Rubio". Pode ser, já que a semana de alto nível da Assembleia Geral da ONU produz uma profusão de cenas a um só tempo cotidianas e surreais.

Esta repórter testemunhou o momento em que o presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, deixava a sede da organização e atravessava a Primeira Avenida (na faixa de pedestres, apesar do trânsito interrompido).

Al-Sharaa assumiu o posto após uma guerra civil que derrubou a ditadura de 24 anos de Bashar al-Assad. Até novembro de 2025, no entanto, al-Sharaa era oficialmente considerado um combatente "terrorista" pelo governo dos EUA, por sua relação com um grupo armado associado a Al-Qaeda, a mesma organização que em 2001 derrubou as Torres Gêmeas na mesma cidade em que ele, agora, atravessava a rua calmamente.

Há alguns meses, o sírio foi reabilitidado e elogiado por Trump. A cena serve como uma metáfora da impermanência das posições na política internacional: banidos ontem podem ser aliados amanhã, e vice-versa.

Nenhum comentário: