"Fracassado", "corrupto", "dorminhoco", "de QI baixo", "estúpido", "desonrado", "vergonhoso", "bandido", "animal", "lunático", "psicopata", "perdedor", "perturbado", "doente", "pervertido", "escória", "canalha", "idiota", "imbecil". Eis uma lista não exaustiva dos termos publicáveis usados pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump recentemente para caracterizar adversários políticos, inimigos geopolíticos ou jornalistas que cruzaram seu caminho. Em que pese a trajetória de outsider do atual mandatário dos EUA e seu estilo sui generis de comunicação, a agressividade no discurso político está longe de ser exclusividade de Trump. Em mais de 150 anos, nunca houve tanta raiva no discurso político como em 2025 nos EUA. É o que mostra uma análise inédita de todos os discursos feitos no plenário do Congresso norte-americano desde 1874. Mas o levantamento — de autoria de economistas de Harvard, HEC Paris, Paris-Saclay e da Universidade da Califórnia, Berkeley — vai além, e mostra que não apenas os representantes eleitos estão mais raivosos do que nunca: posts de eleitores no X (antigo Twitter) e comentários de usuários no Reddit mostram que a raiva atingiu seu ápice na política na última década. Dentre os tweets de votantes, a proporção de frases políticas que expressam raiva cresceu 35% entre 2013 e 2025. Nos tweets de membros do Congresso, essa proporção aumentou 72%. Quanto aos discursos em plenário, a raiva subiu 50%, no mesmo período. O aumento da raiva não vem de usuários novos — as mesmas pessoas ficaram mais bravas, mesmo falando dos mesmos temas. E há um incentivo estrutural: tweets raivosos recebem 63% mais retweets que tweets neutros (59% no caso de congressistas), enquanto emoções positivas são até "punidas" com menos engajamento. A raiva também segue ciclos políticos claros do lado dos políticos: o partido fora da Casa Branca é sistematicamente o mais raivoso, e republicanos usam mais raiva que democratas, sobretudo online. Quanto às políticas públicas, emoções negativas aumentam o apoio ao protecionismo e a políticas de imigração restritivas. Já emoções positivas reduzem o apoio ao populismo. "Em suma, as emoções moldam tanto o engajamento quanto as opiniões sobre políticas", resumiu ao UOL uma das autoras do estudo, a economista Eva Davoine, da UC Berkeley. Cruzamento de dadosAs análises de milhares de discursos parlamentares e milhões de postagens em redes sociais foi possível graças ao auxílio de ferramentas de inteligência artificial. Deste modo, os pesquisadores conseguiram classificar cada texto à luz da expressão de oito emoções (e suas intensidades): raiva, tristeza, orgulho, gratidão, medo, nojo, alegria e esperança. Os pesquisadores cruzaram as contas de redes sociais com os registros públicos de eleitores nos EUA e sua filiação (Republicano, Democrata ou Independente), o que permitiu chegar às conclusões por características demográficas e ideológicas. O resultado foi publicado no último dia 18, sob o título "The Rise of Anger: Emotions and Policy Views", no jornal do Social Economics Lab, da Universidade Harvard. As conclusões são válidas apenas para os EUA, mas o mesmo time de estudiosos fez trabalho semelhante com os discursos políticos na França, e encontrou resultados análogos. "Portanto, já são dois países, duas democracias em que a raiva tem se mostrado em seu ápice. Eu não comentaria se no Brasil o mesmo acontece, porque não fizemos o estudo. Mas o grande diferencial da nossa metodologia é que ela pode ser replicada em qualquer país onde haja dados de discursos parlamentares disponíveis para análise, o que é o caso do Brasil", me disse Eva Davoine. Segundo ela, o aspecto mais complexo da empreitada foi desenvolver essa ferramenta capaz de analisar as emoções. "Basicamente, seria muito simples agora baixar os discursos feitos no Brasil e aplicar nossa ferramenta, que é de acesso público — qualquer pessoa pode usá-la, é muito fácil. Basta executá-la para gerar o mesmo gráfico para o Brasil", afirma Davoine. Cientistas políticos que se debruçam sobre os ciclos eleitorais e sociais de Brasil e EUA afirmam que os dois países assumiram uma dinâmica de espelho nos últimos anos: elegendo governantes populistas de direita, sendo palco de insurgências antidemocráticas, se deparando com o descrédito a instituições públicas. É razoável, portanto, supor que em ambientes democráticos como EUA e Brasil, o comportamento do eleitor médio seja parecido. Neste sentido, o estudo mostra que as mulheres começaram abaixo dos homens em nível de raiva, mas rapidamente os ultrapassaram. Em termos educacionais, quem expressa mais raiva tem ensino superior incompleto ou apenas ensino médio completo. Bacharéis, mestres e doutores expressam menos raiva. Quando o assunto é a idade, eleitores mais velhos têm níveis mais altos de raiva do que os mais jovens. E moradores de zona rural postam com mais raiva do que os habitantes das cidades. Mas a raiva subiu em todos os grupos, sobretudo ao redor de 2016. "Ter raiva pode parecer algo negativo, mas essa carga não existe. E a verdade é que a raiva é uma emoção mobilizadora, nesse sentido ela indica mais propensão ao engajamento político, enquanto o medo é paralisante e ruim para expressão política", diz Davoine. |
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